Hábitos

Fome emocional: como reconhecê-la e acalmá-la em 7 passos

Fome emocional: como perceber se é fome a sério, porque surge com o stress e o tédio e 7 passos práticos para a acalmar sem culpa e sem dietas rígidas.

Team eatamame•8 min de leitura
Em resumo

A fome emocional é a vontade de comer que nasce do stress, do tédio, do cansaço ou da tristeza, e não do que o teu corpo precisa: aparece de repente e pede um alimento específico, muitas vezes doce ou salgado. Para a acalmar, faz uma pausa de alguns minutos e pergunta-te que fome é essa, escolhe uma alternativa adequada à emoção e não saltes refeições: as dietas muito rígidas tornam-na mais forte.

O que é a fome emocional

A fome emocional é a vontade de comer que aparece quando o corpo não precisa de comida, mas a cabeça procura conforto: depois de um dia stressante, por tédio, cansaço ou tristeza. Os investigadores definem-na como a tendência para comer em resposta a emoções negativas, escolhendo sobretudo alimentos muito calóricos e saborosos1.

De vez em quando acontece a muita gente, e não faz mal2. O problema começa quando passa a ser a tua forma principal de lidar com as emoções: os estudos que acompanham adultos ao longo do tempo mostram que quem tende a comer por emoções tem mais probabilidade de aumentar de peso1.

A boa notícia: não precisas de uma força de vontade infinita. Precisas de a reconhecer e de ter algumas alternativas preparadas.

Fome a sério ou fome emocional: as diferenças

O primeiro passo é perceber que tipo de fome tens. Estes são os sinais mais úteis2:

Fome física Fome emocional
Como chega Cresce devagar, aos poucos De repente, com urgência
O que pede Quase qualquer alimento serve Algo específico: chocolate, batatas fritas, gelado
Quando paras Quando sentes que já chega Muitas vezes para lá da saciedade
Depois Satisfação Muitas vezes culpa

Se te reconheces sobretudo na coluna da direita, provavelmente não é o estômago que está a pedir comida.

Porque acontece

O stress muda o apetite

Quando o stress dura muito tempo, o corpo produz mais cortisol, uma hormona que aumenta o apetite e a motivação para comer. O stress também empurra para alimentos ricos em gordura e açúcar, que parecem acalmar por um momento3.

Num estudo de laboratório com 59 mulheres, as que tinham uma resposta de cortisol mais alta ao stress comeram mais calorias no dia stressante e mais alimentos doces do que as outras4.

As dietas muito rígidas alimentam-na

Parece uma contradição, mas restringir demasiado é um dos fatores mais ligados à fome emocional25. A investigação sobre dietas restritivas observou mais pensamentos fixos na comida, reações emocionais mais fortes e mais episódios de compulsão quando a comida volta a estar disponível6.

Por isso, a quem sofre de fome emocional costuma ajudar mais aprender a gerir as emoções do que fazer uma dieta ainda mais rígida5.

Sono, tédio e hábito

  • Dormir pouco: num pequeno estudo com 12 homens jovens e saudáveis, dois dias de sono reduzido aumentaram a fome e o apetite, sobretudo por alimentos muito calóricos7. Dormir pouco e comer por emoções parece uma combinação especialmente ligada ao aumento de peso1.
  • Tédio: comer ocupa o tempo e dá alguma coisa para fazer2.
  • Hábito: se durante anos o sofá à noite andou de mãos dadas com os petiscos, basta o sofá para despertar a vontade.

Como acalmar a fome emocional em 7 passos

1Faz uma pausa e pergunta que fome é essa

Quando a vontade chega, não tens de ganhar uma batalha: só precisas de ganhar tempo. Espera alguns minutos, por exemplo 10, e pergunta-te se estás a comer por fome ou por alguma coisa que sentes2. Muitas vezes percebes que é tédio ou ansiedade, e a vontade baixa.

Experimenta: antes de abrir o frigorífico, pergunta: "Tenho fome, sono, stress ou estou a aborrecer-me?". Se a resposta não for "fome", escolhe uma das alternativas do passo 3.

2Dá um nome à emoção

"Amanhã preocupa-me", "hoje foi um dia difícil" ou "não me apetece fazer nada" são frases simples, mas mudam muito. A fome emocional nasce muitas vezes da dificuldade em distinguir as emoções dos sinais de fome15. Dar um nome ao que sentes ajuda-te a perceber do que precisas mesmo.

3Escolhe uma alternativa adequada à emoção

A comida acalma durante uns minutos, mas a emoção fica. Funciona melhor uma resposta pensada para essa emoção. O exercício, o relaxamento e o contacto com as pessoas de quem gostas estão entre as estratégias que ajudam a reduzir o stress3:

Se sentes… Experimenta…
Stress ou ansiedade Caminhar 10 minutos, respirar devagar, fazer alongamentos
Tédio Mudar de divisão, ligar a alguém, fazer algo com as mãos
Cansaço Deitar-te mais cedo, tomar um duche quente, beber um chá
Tristeza ou solidão Mandar mensagem a alguém de confiança, ouvir música, apanhar ar
Raiva Mexer-te com intensidade uns minutos, escrever o que pensas numa folha

Alternativas à comida para a fome emocional: uma chávena de chá, um caderno com lápis, uns auscultadores para ouvir música, umas sapatilhas para caminhar e uma planta

4Come a horas regulares e não saltes refeições

Chegar à noite depois de saltar o almoço é ter fome a sério e fome emocional ao mesmo tempo: a mistura mais difícil de gerir. Pequeno-almoço, almoço e jantar completos, com proteína, legumes e cereais, e um lanche quando for preciso, tiram força à vontade repentina: não deixar a fome chegar longe demais é um dos conselhos mais simples2. Começar o jantar com uma sopa de legumes também ajuda a chegar ao prato principal com mais calma. Para ideias de refeições que saciam, vê o guia sobre o que jantar para emagrecer.

Lanches que saciam: iogurte natural com mirtilos, uma maçã às fatias com algumas amêndoas, húmus com palitos de cenoura e pepino e um copo de água

5Não te proíbas o que gostas

Proibir o chocolate torna-o ainda mais apetecível, e quando chega o stress acaba-se a tablete inteira. É melhor dar-lhe um lugar: uma porção, num prato, com calma e sem ecrãs, a saboreá-la a sério.

Comer com atenção, ou seja, devagar e reparando no sabor e na saciedade, é uma das estratégias mais estudadas: numa revisão de 14 estudos, as intervenções de mindfulness reduziram a fome emocional e os episódios de compulsão, mas o efeito no peso foi menos claro8.

6Dorme e mexe-te mais

São duas formas indiretas, mas eficazes, de baixar o stress de fundo. A atividade física atenua alguns efeitos negativos do stress3, e dormir o suficiente ajuda a controlar a fome do dia seguinte7. Não precisas de ginásio: uma caminhada depois do jantar já conta.

7Faz um diário das refeições e das emoções

Durante algumas semanas, aponta o que comes, a que horas e como te sentes. Ao fim de poucos dias aparecem os padrões: sempre à terça à noite, sempre depois de um telefonema difícil, sempre em frente à televisão. Registar o que se come é também um dos hábitos mais ligados à perda de peso9.

Com a eatamame basta uma foto ou uma descrição da refeição, até por voz, para veres as calorias e os macros estimados e o comentário do bean. A sequência de dias ajuda-te a manter a constância, e ter as refeições registadas torna mais fácil perceber quando aparece a fome emocional. Se quiseres começar, vê como contar calorias com uma foto.

Se já aconteceu: o que fazer a seguir

Acontece a toda a gente. O que fazes a seguir conta mais do que o episódio:

  • Nada de castigos: saltar a refeição seguinte ou "compensar" com um dia de jejum volta a pôr o ciclo em marcha.
  • Volta à tua próxima refeição normal, como se nada fosse.
  • Pergunta o que aconteceu antes: o que sentias, a que horas, onde estavas. É informação útil, não um motivo de culpa.
  • Olha para a semana, não para a noite: um episódio não muda os teus resultados, um hábito sim. Para uma abordagem sem restrições drásticas, lê como emagrecer sem dieta.

Quando pedir ajuda

A fome emocional ocasional não é uma doença. Mas alguns sinais merecem atenção, porque podem indicar uma perturbação de ingestão alimentar compulsiva10:

  • comer muita comida em pouco tempo sem conseguir parar, mesmo sem fome;
  • comer muito depressa, longe dos outros ou às escondidas;
  • sentir tristeza, culpa, vergonha ou nojo depois;
  • se acontece com regularidade.

Se te revês nestes sinais, fala o quanto antes com o teu médico de família, que te pode encaminhar para uma equipa especializada10. Pedir ajuda cedo torna o caminho mais fácil.

Os erros mais comuns

  • Contar só com a força de vontade: resulta melhor mudar o ambiente, por exemplo não ter os petiscos à vista.
  • Responder com uma dieta mais rígida: a restrição é um dos motores da fome emocional6.
  • Saltar refeições para "compensar": leva a mais fome à noite.
  • Comer em frente a ecrãs: não reparas em quanto comes nem em quando já chega.
  • Julgares-te por um episódio: a culpa é muitas vezes o ponto de partida do seguinte.

Perguntas frequentes

A fome emocional engorda?

+

Pode engordar, se se tornar um hábito: costumam escolher-se alimentos muito calóricos e os estudos que acompanham adultos ao longo do tempo ligam o comer por emoções ao aumento de peso. Um episódio isolado não conta: conta a frequência.

Porque é que a fome emocional aparece sobretudo à noite?

+

À noite juntam-se o cansaço, o stress acumulado e mais tempo livre em frente a um ecrã. Se ainda por cima comeste pouco durante o dia, a fome a sério mistura-se com a emocional. Refeições regulares e um jantar completo ajudam muito.

Fome emocional e ansiedade estão ligadas?

+

Muitas vezes, sim: a ansiedade e o stress estão entre os gatilhos mais comuns. Mas há quem perca o apetite quando sente ansiedade. O que ajuda é perceber o teu padrão e ter alternativas prontas para esses momentos.

A fome emocional é uma perturbação alimentar?

+

Não por si só: é um comportamento muito comum. Passa a ser um sinal a levar a sério se comes grandes quantidades sem conseguir parar, muitas vezes às escondidas e com muita vergonha depois. Nesse caso, fala com o teu médico de família.

É possível fazer desaparecer a fome emocional?

+

Comer de vez em quando para te consolares é normal e não faz mal. Torna-se um problema quando é a primeira ou a única forma de lidar com o stress. O objetivo realista é ter também outras estratégias, para que os episódios sejam mais raros e mais pequenos.

Fontes

  1. Konttinen H – Emotional eating and obesity in adults: the role of depression, sleep and genes, Proceedings of the Nutrition Society (2020)
  2. Cleveland Clinic – Emotional Eating: What It Is and Tips to Manage It
  3. Harvard Health Publishing – Why stress causes people to overeat
  4. Epel E et al. – Stress may add bite to appetite in women: a laboratory study of stress-induced cortisol and eating behavior, Psychoneuroendocrinology (2001)
  5. van Strien T – Causes of emotional eating and matched treatment of obesity, Current Diabetes Reports (2018)
  6. Polivy J – Psychological consequences of food restriction, Journal of the American Dietetic Association (1996)
  7. Spiegel K et al. – Sleep curtailment is associated with increased hunger and appetite, Annals of Internal Medicine (2004)
  8. Katterman SN et al. – Mindfulness meditation as an intervention for binge eating, emotional eating, and weight loss: a systematic review, Eating Behaviors (2014)
  9. Burke LE et al. – Self-monitoring in weight loss: a systematic review, Journal of the American Dietetic Association (2011)
  10. NHS – Binge eating disorder: overview

Este guia tem um fim informativo e não substitui o conselho de um médico ou de um nutricionista. Em caso de doença, gravidez ou necessidades específicas, consulta um profissional de saúde.

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